O Fim Anunciado da Escola Pública. E agora, Portugal?

A cega globalização dos mercados mata a educação pública. Portugal, em matéria social e educativa, chafurda no lixo neo-liberal que outros países, lúcida e corajosamente, começam já a rejeitar.
Com a globalização dos mercados e com a mundialização da economia e da política neo-liberal, a Educação Pública passou a ocupar lugar secundário na agenda governamental dos países ocidentais.
A Educação é hoje, na apelidada sociedade da informação, um estorvo à acéfala neo-liberalização dos mercados ocidentais, erigida sobre o equivocado e enganador rótulo de ‘sociedade do conhecimento’ e da ‘aprendizagem ao longo da vida’. Nada disso. Informação abundante (transbordante) não é sinónimo de mais conhecimento. Antes é como areia fina que se escapa à nossa capacidade neuronal de a entender e de muito menos de humanamente a aplicar.
Com efeito, nadamos e naufragamos em informação (fragmentada e fragmentária), e, contudo, em matéria de conhecimento e desenvolvimento humanos, consentidamente regredimos. Regredimos porque nos transformamos em reprodutores automatizados do discurso dominante, o qual, só muito marginalmente, nos permite sistematizar, não o todo, mas uma parte ínfima da informação que neuronalmente nos curto-circuíta e relacionalmente nos entope os sentidos, inibindo a necessária entropia que supostamente deveria advir de tão imenso oceano informativo.
Trata-se de uma informação que nos incha de vazios e que nos preenche de miragens científicas, políticas, sociais e económicas.
Neste avassalador mas fragmentário processo (des)informativo, que diariamente nos sufoca de novidades efémeras (ainda que parcelarmente importantes), é impossível organizar e sistematizar o todo como um todo, o conhecimento fundamental que sempre se deverá reconduzir ao bem-estar e à felicidade universal da civilização humana.
A educação -a escola– sobrevivem, neste carroussel mercantilista, por poucos -muito poucos- mais anos do que os correspondentes ao número de dedos de uma mão que muitos querem ver já amputada.
A verdade, porém, é outra. É bem diferente daquela que o circunstancialismo da competitividade econónima à escala global nos quer fazer crer.
Enquanto educadores e cidadãos, não podemos subestimar a crise da educação pública, assim como não podemos, obviamente, sonegar a grave e profunda crise global de valores que assola as democracias ocidentais, capitaneada pelos barões do capitalismo e da engenharia financeira mundial.
A questão que se nos coloca é a de nos interrorgarmos se é possível transformar a Escola não numa agência orientada exclusivamente para a batalha do progresso económico, ou se, nesta competitiva e excludente guerra de grandes mercados regionais, a educação não se deverá orientar nos países com tradição e cultura democráticas, definitivamente, não tanto para o progresso económico mas, sobretudo, para o desenvolvimento Humano(?).
Nesta onda avassaladora de competitividade sem limites, corremos o sério risco de, a breve trecho, reiniciarmos com outra mais profunda e vil gravidade, os conflitos nacionalistas (desta feita também regionais) que ao longo da história mancharam de sangue e sofrimento o nosso anão mas sangrento trajecto civilizacional.
Nesta linha de pensamento, importa à educação, hoje mais do que nunca, recentrar-se nos valores da vida. Melhor: face à ausência de vontade e livre-arbítrio político dos estados nação em conduzir os seus destinos, convirá a Portugal corajosamente assumir-se como agente de mudança de paradigmas, juntando-se aos pioneiros que começam a entender que a cidadania deve confluir para o bem-estar dos cidadãos em idênticas circunstâncias de igualdade de oportunidades e que, para esse desejado efeito, em muito a educação pode estratégica e incontornavelmente contribuir.
Trata-se de orientar a educação não para os resulatdos estatísticos da competitividade económica (balofa e efémera como a história já antes nos desmonstrou), mas de a fazer alinhar pelo diapasão da soliedariedade e da felicidade individual e colectiva das novas gerações.
Sei que o presente repto é difícil de descodificar à luz do labiríntico condicionamento social, económico e político da actualidade, no qual (e para o qual) o sucesso dos mercados se faz confundir, como arquétipo mediaticamente massificado e vulgarizado, com o narcísico sucesso dos indíviduos e com o triunfante egoísmo colectivo das comunidades regionais.
Porém, insisto: a mercantilização global do mundo provocará vitoriosos e derrotados. Torna-se evidente que quem lidera este movimento (os EUA e os restantes membros do G
assumem-se e querem ser, convenientemente, os seus líderes. Pergunto-me: nesta lógica competitiva, que protagonismo sobra para Portugal? Adianto uma possível resposta: nesta bipolarização dos mercados, seríamos obrigatoriamente um povo pobre, excluído dos centros de decisão e rendido aos resultados da disputa mercantil entre os eixos estratégicos americano-franco-germânico e o dragão (em rápido e imparável crscimento) do omnipresente do Oriente.
Nesta perspectiva, a globalização é dual e estará regionalmente circunscrita: América vs. Oriente.
Diz-nos a história que Abel matou Caím. Pode Portugal (e na sua esteira muitos outros países europeus que tomaram partido por um dos bíblicos irmãos em disputa), inverter e arrepiar caminho. Pode seguir não a geografia belicista mundial, mas traçar a cartografia da harmonia. Não a rota da competitividade, mas antes a da partilha e solidariedade. Não a da democracia autocrática mas o da democracia participativa, solidária e cooperante. Não a do progresso de uns poucos em troco da pobreza e da exclusão de muitos, mas a do desenvolvimento humano global, na senda da felicidade universal.
Ora, é aqui que a educação pode marcar a diferença. É aqui, nesta anunciada brecha já anunciada pelos conflitos entre indomáveis Golias, que a escola pública pode revitalizar-se e cumprir a mais nobre das missões que para a nossa conturbada modernidade civilizacional lhe é requerida: educar para o bem-estar individual e colectivo; educar para os valores; educar – como diz Claudio Naranjo – para a virtude.
Se Portugal quer ser moderno e pioneiro, então que o seja: comece pela educação pública orientada para a felicidade dos seus cidadãos. Se agora assim o fizer, a educação formal portuguesa será, amanhã, mais cobiçada e palgiada do que é, na actualidade, a dos chamados países de sucesso, cujos modelos educativos, vistos à lupa do mercantilismo global, ocupam no ranking da competitividade económica lugares cimeiros. Estes são, pela sua essência, conjunturais; aqueles (por que Portugal deveria ambicionar), são estruturais e estruturantes. Perenes, também.
Fernando Cortes Leal
Maio 17, 2008 às 10:11 am
podes telefonar-me ou dar-me o teu nº através de e-mail:
manuelbap@yahoo.com
meu nº 96 668 51 78